
De acordo com a fiscalização, eles passaram fome e a situação só não foi pior porque, na falta de salário, conseguiram receber o auxílio emergencial. A família está na propriedade desde novembro de 2019. No início, segundo Hélio Ferreira Magalhães, auditor fiscal do trabalho responsável pela ação, as crianças e a adolescente iam à escola, caminhando longas distâncias para isso, e trabalhavam na parte da tarde. Ajudavam o pai na adubação e fertilização da terra, na faxina da fazenda, o que incluía a casa do proprietário.
Mas, com o endurecimento da pandemia de covid-19, passaram a trabalhar em tempo integral. Outros dois irmãos, de dois e quatro anos, ainda não prestavam serviço. As crianças e a adolescente não chegaram aplicar agrotóxicos, pois o pai informou à fiscalização que mesmo ele ficava tonto com o manuseio do produto, uma vez que o patrão não havia fornecido equipamentos de proteção individual (EPI).
A única proteção que ele usava era uma botina de borracha, não adequada para aquele tipo de serviço. Mas que, mesmo assim, teve que comprar do empregador por R$ 40.
“Psicologicamente, as crianças estão abaladas”, lamenta Magalhães. “Sempre que envolve criança, isso fica mais pesado. O adulto tem mais recursos para se defender, mas as crianças estão sujeitas à condição que se impõe.”
Esta matéria será atualizada com os dados sobre o empregador e sua posição sobre o ocorrido assim que a operação, sob responsabilidade da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Minas Gerais, que ainda está em curso, for finalizada. A família está deixando o local e os pagamentos de salários atrasados devem ser feitos.
De acordo com a fiscalização, o empregador havia prometido um salário mínimo por mês ao trabalhador, mas ele recebeu entre R$ 300 e R$ 600 nos meses que ganhou algo. Às vezes, vinha apenas uma “feira” de alimentos. A esposa e os três filhos nada recebiam.
Hélio Magalhães conta que o empregador afirmou que mantinha cerca de R$ 8 mil do trabalhador em sua posse. O intuito seria “proteger” o empregado de ser roubado.
Como o trabalhador acreditava que seria pago e as condições iam melhorar, e estava em situação econômica difícil, permaneceu no serviço, que só podia ser completado com a ajuda da família.
A propriedade fica em um local de difícil acesso, que demanda veículo com tração nas quatro rodas. O trabalhador contou que como o empregador ficava longos períodos sem retornar, não raro ficavam sem dinheiro ou alimento. Para se garantir, a família plantava feijão e uma horta de subsistência.
Com a chegada da pandemia, caiu a frequência de visitas do empregador. Segundo a fiscalização, a família se manteve porque teve acesso ao auxílio emergencial. “Sem isso, eles teriam passado fome direto”, avalia o auditor fiscal.
Isso foi possível porque o patrão nunca assinou a carteira de trabalho de ninguém da família e eles estavam em situação de informalidade.
Com o fim do pagamento do benefício, a fome voltou a rondar a casa. No momento da fiscalização, foi constatado um pouco de arroz, de macarrão, sal e feijão e açúcar misturado com pó de café. Questionado sobre a razão dessa mistura, o trabalhador explicou que era para evitar que as crianças comessem o açúcar. Elas iam atrás do produto porque estavam com fome.
“Passaram dificuldade com o fim do auxílio, não tinha nada para comer na casa, um negocio assim triste. O aspecto de desalento das crianças, da família, tocou a gente”, diz Magalhães.
O governo federal interrompeu o pagamento do benefício no final do ano passado e o processo para autorizar a sua renovação vem se arrastando no Congresso Nacional. O Ministério da Economia demanda que novos pagamentos venham com medidas de cortes de gastos e ajuste fiscal, como o fim do piso obrigatório de gastos públicos com saúde e educação.
Vários elementos ajudaram na configuração de condições degradantes, um dos caracterizadores do trabalho escravo, segundo a fiscalização. Viviam em uma casa muito antiga, com condições estruturais comprometidas, chuveiro dando choque e telhado com goteira. Mas como o vaso sanitário não funcionava direito (os dejetos eram lançados no entorno do casa), a família fazia suas necessidades no mato. Não havia camas para todos e a fumaça do fogão a lenha tomava o ambiente.
A fazenda, segundo a fiscalização, conta com 3,5 hectares de café e 32 mil pés de eucalipto.
Além da retirada da família da área, a fiscalização demandou o pagamento de salários atrasados para os cinco no valor total de cerca de R$ 60 mil, sem considerar direitos trabalhistas e previdenciários dos pais. Foram lavrados autos de infração contra o empregador. Todos vão receber três parcelas do seguro-desemprego que é concedido, desde 2003, aos resgatados do trabalho escravo contemporâneo.
A fiscalização, que ficou sabendo do caso por conta de uma denúncia, contou com o apoio da Polícia Militar para a notificação do empregador. O Ministério Público do Trabalho de Minas Gerais está acompanhando o caso. “A gente acredita que existam outros casos semelhantes na região. Quando isso é divulgado, a situação desses trabalhadores tende a melhorar porque outros empregadores vão ficar mais preocupados em seguir a lei”, afirma o auditor fiscal.
Fonte: https://noticias.uol.com.br/