Cessar-fogo é esperança para os vivos, diz palestina que cresceu no Brasil

20 de janeiro de 2025 09:04
Por: Redação

Assmaan Abu Jidian, que morou na Baixada Fluminense entre os 4 e 20 anos de idade, relata que o fim do conflito não encerra a dor dos sobreviventes20/01/2025 às 05:00

Assmaa Abu Jidian
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O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em vigência a partir deste domingo (19), não vai apagar as dores da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023, mas encheu de esperança Assmaa Abu Jidian, de 38 anos, que sonha com um recomeço para ela, os filhos e o povo palestino.

Moradora da cidade de Deir-Al-Balah, na região central da Faixa de Gaza, a palestina viveu dos 4 aos 20 anos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

“O cessar-fogo é uma esperança para quem ainda está vivo, apesar de tudo estar destruído. É difícil falar. Até certo ponto a gente está feliz porque vai ter o cessar-fogo, mas ao mesmo tempo é muita destruição, muitas pessoas queridas foram mortas. É uma sensação dividida de felicidade e de tristeza. Ninguém vai conseguir esquecer o que aconteceu”, disse Assmaa à CNN, em uma conversa por telefone.

Apesar de ter passado a infância e a adolescência no Brasil, Assmaa não tem cidadania brasileira.

Em 2006, voltou com a mãe, duas irmãs e o irmão para a Faixa de Gaza e o processo de naturalização foi interrompido.Play Video

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Sem documentação, ela e os filhos de 14, 12, 7 e 4 anos não entraram na lista de repatriados trazidos ao Brasil pelo governo federal.

“O cessar-fogo é uma notícia muito boa. É uma conquista para os palestinos que resistiram à fome, aos bombardeios, aos deslocamentos. Só que é uma dor que ninguém consegue evitar.”

Nos últimos 15 meses, a palestina viu a casa da irmã destruída, a residência da mãe ser parcialmente atingida, familiares e amigos mortos e feridos. Teve deixar sua casa por duas vezes para buscar refúgio.

Ao retornar para a residência, viveu sem energia elétrica, com escassez de água e comida. Enfrentou longas filas para garantir a alimentação. Dividiu com vizinhos o pouco que tinha em casa. Ia a velórios quase diariamente, relatou à CNN.

Desde de 7 de outubro de 2023 nada mais foi igual. Assmaa que fabricava cosméticos naturais perdeu o emprego, assim como seus familiares.

Os filhos deixaram de ir à escola. Passou a dormir duas horas por noite com medo dos bombardeios e mantém mochilas preparadas com os principais documentos e roupas para uma fuga na madrugada.

“Eu preciso tomar remédio para dormir, porque a cabeça não para de pensar. Não tem como parar de pensar no que vai acontecer no meio da noite, em cima de você. A mochila ficava preparada na porta da casa para qualquer momento a gente sair correndo”, relata.

O cessar-fogo não põe fim imediato ao sofrimento em Gaza, mas Assmaa espera apoio de países para uma reconstrução rápida do território.

“Agora, vemos as pessoas retornando para casas destruídas. Todo mundo sabe que 80% de Gaza não serve mais para se morar. O que vai conseguir apagar a dor que eles estão sentindo? Mas ao mesmo tempo a vida tem que continuar”, afirma a palestina.

Além de residências, Assmaa cita a necessidade escolas, hospitais, restabelecimento da energia elétrica, do fornecimento de água, médicos, psicólogos, empregos. “Aqui falta tudo”, diz Assmaa.

“Se tiver apoio de países, com tecnologia da China e os Estados Unidos, a reconstrução pode ser mais rápida. Eu tenho que pensar de uma maneira positiva. Se eu pensar de uma maneira negativa, eu vou ficar na minha casa e continuar chorando. É difícil começar do zero, mas dá para começar. Não é o fim do mundo.”

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