Covid-19: por que a variante do coronavírus descoberta na Índia preocupa o Brasil e o mundo?

18 de maio de 2021 10:20
Por: Redação
CoronavírusCRÉDITO,GETTY IMAGES

A descoberta da variante B.1.617 não é exatamente uma novidade: os primeiros relatos dessa nova versão do coronavírus foram publicados ainda em outubro de 2020.

Mais recentemente, porém, o interesse e a preocupação relacionados a essa linhagem aumentaram consideravelmente.

Isso porque o número de casos de covid-19 provocados por ela aumentou consideravelmente na Índia, seu provável local de origem.

Nas últimas semanas, a cepa também foi detectada em outros 44 países de todos os seis continentes.

Desde o final de abril, a Índia vive seus piores momentos desde que a pandemia começou, com recordes nos números de infectados e óbitos pela covid-19 — embora a variante não seja o único fator que explica esse agravamento da crise sanitária por lá.

No Reino Unido, a subida vertiginosa de pacientes infectados com a B.1.617 ameaça a reabertura: já existem dúvidas se as atividades sociais e econômicas serão 100% retomadas até junho, como planejado.

Por ora, o Brasil ainda não tem nenhum caso provocado por essa linhagem oficialmente detectado.

Mas a confirmação da chegada da cepa à Argentina e as notícias de um paciente indiano que está em observação no Maranhão ligaram recentemente o sinal de alerta no país.

Mas o que faz a B.1.617 ser tão preocupante assim?

O que a ciência já sabe

Essa variante possui três versões, com pequenas diferenças: a B.1.617.1, a B.1.617.2 e a B.1.617.3.

Todas elas foram descobertas na Índia, entre outubro e dezembro de 2020.

Um paciente de covid-19 usando uma máscara de oxigênio médica sendo carregado em uma maca para um hospital antes da internação em Calcutá, na Índia, em 24 de abril de 2021CRÉDITO,GETTY IMAGES

A análise genética revelou que o trio apresenta mutações importantes nos genes que codificam a espícula, a proteína que fica na superfície do vírus e é responsável por se conectar aos receptores das células humanas e dar início à infecção.

Entre as alterações, três delas chamam mais a atenção dos especialistas: a L452R, a E484Q e a P681R.

Vale reparar que a mutação L452R já havia sido observada em duas variantes detectadas em Nova York e na Califórnia, nos Estados Unidos.

A E484Q tem algumas similaridades com a E484K, que foi uma alteração encontrada em outras três linhagens que ganharam bastante destaque nos últimos meses: a B.1.1.7 (Reino Unido), a B.1.351 (África do Sul) e a P.1 (Brasil).

Já a mutação P681R parece ser exclusiva das versões flagradas na Índia e não se sabe muito bem o que ela pode significar na prática.

“Essas mutações virais estão surgindo em cidades em que há o relaxamento das medidas de proteção e onde se acreditava que a população já estava imunizada, seja pela infecção natural ou pela vacinação”, diz o virologista Fernando Spilki, professor da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul.

Em linhas gerais, tudo indica que esses “aprimoramentos” genéticos melhoram a capacidade de transmissão do vírus e permitem que ele consiga invadir nosso organismo com mais facilidade.

Antes, com as versões anteriores, era necessário ter contato com uma quantidade considerável de vírus para ficar doente.

Agora, com as novas variantes, essa carga viral necessária para desenvolver a covid-19 é um pouco mais baixa, o que certamente representa um perigo.

“É como se o vírus criasse caminhos para escapar do sistema imune e desenvolvesse maneiras de transmissão mais eficazes”, completa Spilki, que também coordena a Rede Corona-Ômica, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações.

O que a ciência ainda não sabe

Por enquanto, ainda há muitas perguntas sem respostas sobre a B.1.617 e seu impacto no controle da pandemia.

Até o momento, os cientistas não conseguiram estabelecer a sua real velocidade de transmissão e o quanto as mudanças genéticas contidas nessa linhagem interferem na eficácia das vacinas já disponíveis.

Também não se sabe ao certo se a variante está relacionada a quadros de covid-19 mais graves, que exigem internação e intubação.

Com base nas poucas informações disponíveis, o Grupo Independente de Aconselhamento Científico para Emergências (Indie-Sage), do Reino Unido, montou projeções para entender como a cepa pode influenciar a pandemia por lá.

Se a B.1.617 for de 30% a 40% mais transmissível que a B.1.1.7 (que é a variante dominante até o momento no Reino Unido), é possível que a região volte a viver uma situação tão grave quanto a que ocorreu nas ondas anteriores, com aumento considerável no número de hospitalizações.

Pessoa em LondresCRÉDITO,GETTY IMAGES

Se ficar provado que essa variante consegue “escapar” da proteção da vacina, é provável que a situação seja ainda pior, estimam os especialistas.

Vale lembrar que o Reino Unido é um dos países com o melhor sistema de vigilância genômica do mundo: todas as semanas, eles fazem o sequenciamento genético de dezenas de milhares de amostras.

E os resultados recentes indicam um aumento considerável na presença da B.1.617 em terras britânicas: em uma semana, o número de casos provocados por essa nova variante quase triplicou.

Em 12 de maio, 1.331 amostras analisadas apresentaram a linhagem descoberta originalmente na Índia. Na semana anterior, eram 520.

Nos últimos 30 dias, a participação relativa dela no total de casos que foram sequenciados geneticamente subiu de 1% para 9%.

Em algumas regiões inglesas, como Bolton, Blackburn, Bedford e Sefton, a B.1.617 já representa a maioria dos casos analisados e já se tornou dominante.

Para conter o problema, o Indie-Sage montou um plano emergencial, que envolve seis ações prioritárias, como a aceleração da vacinação no Reino Unido e no mundo, o controle de fronteiras, o aperfeiçoamento dos sistemas de diagnóstico locais e a continuidade da vigilância epidêmica e genômica.

Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
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