Os pedidos de demissão do agora ex-ministro da Defesa general Fernando Azevedo e dos três comandantes das Forças Armadas escancaram uma crise inédita no país, mas que “estava fadada a ocorrer”, diz o historiador Carlos Fico.
“Nunca houve o afastamento de três comandantes militares ao mesmo tempo na história da República. É grave”, avalia o pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A crise nas Forças Armadas foi detonada às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964, nesta quarta-feira (31/3). No entanto, Fico não acredita na possibilidade de ocorrer uma nova ruptura da ordem institucional.
“Não sei se é excesso de otimismo, mas pelo que vejo do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e da sociedade em geral percebemos que o apoio a Bolsonaro é barulhento, mas a maioria não o apoia e reagiria.”
Autor de diversos livros, entre eles O golpe de 1964: momentos decisivos e História do Brasil Contemporâneo: da Morte de Vargas aos Dias Atuais, Fico diz que as Forças Armadas entraram em uma relação “promíscua” com o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e que isso inevitavelmente levou à crise atual.
“Falo promiscuidade porque houve um envolvimento indevido com o governo, com uma enxurrada de militares, uma presença excessiva e desproporcional. A crise estava contratada desde então”, diz ele.
‘Apoiar Bolsonaro foi um risco para as Forças Armadas’

O pesquisador aponta que, de um lado, o presidente se julgou no direito de cobrar lealdade política do ministro da Defesa e das Forças Armadas.
“Isso não convém, não compete a ele, e é totalmente inadequado e inconstitucional para as Forças Armadas, sendo um órgão de Estado”, afirma.
Ao mesmo tempo, as Forças Armadas acreditaram que poderiam controlar os ímpetos e arroubos de Bolsonaro.
“Os militares foram ingênuos. Pretendiam tutelar o governo e até foram decisivos no começo, mas depois não conseguiram evitar as posições extremistas ou absurdas do presidente quanto à pandemia ou nas questões ideológicas e de costumes. Foi uma ilusão”, diz Fico.
A pasta da Defesa foi criada em 1999 e era tradicionalmente chefiada por ministros civis. Desde o governo Michel Temer (2016-2018), porém, passou a ser comandada por um militar.
O agora ex-ministro da Defesa fez questão de ressaltar no comunicado divulgado na segunda-feira (29/3) sobre sua saída do governo que “preservou as Forças Armadas como instituições de Estado”.
Depois, nesta terça, os três comandantes das Forças Armadas deixaram os cargos: Edson Pujol, comandante do Exército, Ilques Barbosa, da Marinha, e Antônio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica.
A saída dos comandantes é vista como um ato de protesto pela demissão sumária de Azevedo.
“Bolsonaro é autoritário, de viés golpista e extremamente incompetente. Apostar suas fichas como um cidadão ou como um político neste governo já seria um risco tremendo, imagina para as Forças Armadas…”, diz Fico
