‘Crise estava fadada a ocorrer’, diz historiador sobre demissões no comando das Forças Armadas

Diego Armando Maradona morreu nesta quarta-feira, aos 60 anos, após uma parada cardiorrespiratória. Um dos grandes da história do esporte e maior ídolo do futebol argentino, o astro sofreu um mal súbito no fim da manhã, quando ambulâncias foram chamadas à casa onde ele se recuperava de uma cirurgia no cérebro, em Tigre, na zona […]

Os pedidos de demissão do agora ex-ministro da Defesa general Fernando Azevedo e dos três comandantes das Forças Armadas escancaram uma crise inédita no país, mas que “estava fadada a ocorrer”, diz o historiador Carlos Fico.

“Nunca houve o afastamento de três comandantes militares ao mesmo tempo na história da República. É grave”, avalia o pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A crise nas Forças Armadas foi detonada às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964, nesta quarta-feira (31/3). No entanto, Fico não acredita na possibilidade de ocorrer uma nova ruptura da ordem institucional.

“Não sei se é excesso de otimismo, mas pelo que vejo do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e da sociedade em geral percebemos que o apoio a Bolsonaro é barulhento, mas a maioria não o apoia e reagiria.”

Autor de diversos livros, entre eles O golpe de 1964: momentos decisivos e História do Brasil Contemporâneo: da Morte de Vargas aos Dias Atuais, Fico diz que as Forças Armadas entraram em uma relação “promíscua” com o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e que isso inevitavelmente levou à crise atual.

“Falo promiscuidade porque houve um envolvimento indevido com o governo, com uma enxurrada de militares, uma presença excessiva e desproporcional. A crise estava contratada desde então”, diz ele.

‘Apoiar Bolsonaro foi um risco para as Forças Armadas’

Bolsonaro com Pujol

O pesquisador aponta que, de um lado, o presidente se julgou no direito de cobrar lealdade política do ministro da Defesa e das Forças Armadas.

“Isso não convém, não compete a ele, e é totalmente inadequado e inconstitucional para as Forças Armadas, sendo um órgão de Estado”, afirma.

Ao mesmo tempo, as Forças Armadas acreditaram que poderiam controlar os ímpetos e arroubos de Bolsonaro.

“Os militares foram ingênuos. Pretendiam tutelar o governo e até foram decisivos no começo, mas depois não conseguiram evitar as posições extremistas ou absurdas do presidente quanto à pandemia ou nas questões ideológicas e de costumes. Foi uma ilusão”, diz Fico.

A pasta da Defesa foi criada em 1999 e era tradicionalmente chefiada por ministros civis. Desde o governo Michel Temer (2016-2018), porém, passou a ser comandada por um militar.

O agora ex-ministro da Defesa fez questão de ressaltar no comunicado divulgado na segunda-feira (29/3) sobre sua saída do governo que “preservou as Forças Armadas como instituições de Estado”.

Depois, nesta terça, os três comandantes das Forças Armadas deixaram os cargos: Edson Pujol, comandante do Exército, Ilques Barbosa, da Marinha, e Antônio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica.

A saída dos comandantes é vista como um ato de protesto pela demissão sumária de Azevedo.

“Bolsonaro é autoritário, de viés golpista e extremamente incompetente. Apostar suas fichas como um cidadão ou como um político neste governo já seria um risco tremendo, imagina para as Forças Armadas…”, diz Fico


Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56585235